sábado, 3 de outubro de 2009

TV digital aproxima países com tecnologia

TV digital aproxima países com tecnologia

Sistema adotado no Brasil tem como base o padrão japonês

Renato Cruz

A TV digital, que estreou em dezembro na cidade de São Paulo, aproxima o Brasil e o Japão por meio da tecnologia. O sistema adotado aqui tem como base o padrão japonês, chamado ISDB-T. Foram incorporadas atualizações sugeridas por grupos de pesquisas brasileiros. Nos últimos meses, técnicos japoneses de empresas como a NEC e a Toshiba trabalharam nas emissoras paulistanas para colocar o sinal no ar.

“A história e a cultura vivenciadas nos últimos 100 anos fizeram com que os brasileiros confiassem nos imigrantes e nos descendentes japoneses”, afirmou Tomio Okamoto, gerente de Vendas Internacionais da NEC Corporation, no Japão. “A confiança se estende à tecnologia do Japão.” A NEC formou uma equipe com seis engenheiros japoneses e quatro brasileiros para atender às emissoras brasileiras na transição do analógico para o digital.

“A adaptação do padrão japonês de TV digital pelo Brasil não é uma questão puramente técnica, na minha opinião”, explicou Okamoto. “Acredito que isto pode levar a mais 100 anos de um relacionamento ainda mais próximo entre os dois países.” O Brasil é o único país, até agora, a adotar o ISDB-T fora do Japão. O mercado japonês consome cerca de 10 milhões de televisores por ano, a mesma quantidade que o Brasil. A diferença é que lá são vendidos modelos mais caros e sofisticados.

O Brasil fez modificações no padrão japonês. A tecnologia de compressão de vídeo foi atualizada, trocando-se o chamado MPEG-2 pelo MPEG-4 (ou H.264). E foi criado localmente um software de interatividade, batizado de Ginga. “O bom é que Ginga em japonês também tem significado”, disse Luiz Fernando Soares, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, e um dos criadores do software. “Quer dizer galáxia.”

Soares tem se correspondido, via correio eletrônico, com programadores que estão no Japão, e trabalham na adaptação do Ginga para os equipamentos que fabricantes japonesas planejam lançar no Brasil. Os primeiros conversores e televisores digitais a chegar ao mercado não têm o Ginga. O software permitirá serviços parecidos com os da internet, como acesso a informações personalizadas, enquetes e até comércio eletrônico, via televisão.

“Os trabalhos da TV digital não acabaram em 2 de dezembro”, afirmou Yasutoshi Miyoshi, presidente da Primotech21, que representa fabricantes japoneses de componentes eletrônicos no Brasil. “É só a ponta do iceberg. O Brasil tem 5,5 mil municípios que ainda precisam ser cobertos com a TV digital.” A Primotech21 fechou uma parceria com STB, fabricante brasileira de antenas de Santa Rita do Sapucaí (MG), para produzir transmissores de baixo custo para as cidades menores brasileiras.

Miyoshi tem 38 anos. Ele nasceu no Japão e veio para o Brasil com três anos e meio. Até os 10 anos estudou em escola japonesa. Seu pai trabalhava numa construtora japonesa e iria ficar cinco anos por aqui. Ele gostou do País e, quando chegou a hora de voltar, preferiu ficar.

“Uma aliança entre Brasil e Japão é extremamente positiva”, afirmou Miyoshi. “Existe uma relação de complementaridade. O Brasil tem vários produtos de que o Japão precisa - como metais, etanol, crédito de carbono - e tem a maior colônia japonesa fora do Japão. Não adianta o Brasil querer competir com a China, oferecendo mão-de-obra barata.”

A Semp Toshiba tem um técnico da Toshiba Corporation, do Japão, para acompanhar o lançamento dos produtos de TV digital. “Trabalhamos em estreita cooperação com a Toshiba”, disse Roberto Barbieri, diretor técnico da Semp Toshiba, joint venture entre a brasileira Semp e a japonesa Toshiba. A escolha do padrão japonês pelo Brasil fez com que a empresa preparasse sua reentrada no mercado de telefones celulares.

O padrão japonês tem um serviço, chamado One Seg, que permite às emissoras transmitir um sinal para celulares e outros dispositivos móveis dentro do canal de televisão. Ele é o principal diferencial do sistema japonês para os outros padrões internacionais. Apesar de as emissoras brasileiras estarem transmitindo o sinal para celulares, ainda não existem no País aparelhos capazes de receber TV aberta e fazer chamadas. Os modelos japoneses não funcionam nas redes celulares brasileiras.

Tsutomu Fujishima chegou ao Brasil em maio de 2007 e planeja ficar aqui até o fim do ano. Ele é especialista em eletrônicos de vídeo digital da Toshiba Digital Media Company, em Fukuya, no Japão, e veio para cá para auxiliar a Semp Toshiba no lançamento de seus produtos de TV digital.

“Como japonês, só posso ter muito orgulho da escolha do sistema pelo Brasil, mas me parece muito lógico, pois o ISDB (padrão japonês) é uma evolução dos sistemas americano e europeu, e já inclui soluções comprovadas de mobilidade e portabilidade, consideradas muito importantes pelos radiodifusores brasileiros”, disse Fujishima.

Para ele, a tecnologia cria oportunidades de trabalho em conjunto: “Acredito que o fato de Brasil e Japão terem sistemas que compartilham a mesma estrutura básica cria oportunidades interessantes de manter uma colaboração técnica continuada no futuro”.

FONTE: O Estado de S. Paulo


Publicado em: 21/01/2008
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