sábado, 3 de outubro de 2009

O Nikkei no Brasil, a alma japonesa desses brasileiros

Obra a ser lançada amanhã registra integração e contribuição dos imigrantes e as tensões surgidas ao longo do processo
Jorge J. Okubaro


Um ''''registro da mobilidade social dos imigrantes japoneses e seus descendentes, e de sua contribuição para a formação cultural da sociedade brasileira''''. É assim que o professor emérito da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e presidente da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, Kokei Uehara, resume o significado do livro O Nikkei no Brasil. Trata-se de uma obra coletiva coordenada por Kiyoshi Harada e que será lançada amanhã, a partir das 19 horas, no hall da Assembléia Legislativa, no Ibirapuera.

O livro abre uma lista de lançamentos de títulos que tratam da imigração japonesa e que certamente virão a público ao longo de 2008. Afinal, este é o ano em que se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil, iniciada em 18 de junho de 1908, com a chegada do navio Kasato Maru ao Porto de Santos. A expressão nikkei empregada no título ao livro se refere aos japoneses e seus descendentes que moram fora do Japão.

É uma obra extensa (630 páginas), que mostra como evoluiu a imigração japonesa no Brasil, como ocorreu a integração dos imigrantes e dos nikkeis em geral à sociedade brasileira, as tensões surgidas ao longo dessa integração e a influência dos brasileiros de origem japonesa em áreas tão diversas como agricultura, indústria, comércio, assistência social e saúde.

O livro dedica, ainda, dois capítulos densos a um dos fenômenos mais marcantes da história da imigração, que é o dos dekasseguis - os nikkeis que, em grande número, resolveram fazer o caminho inverso de seus pais e avós, deixando o Brasil para ganhar a vida no Japão. O primeiro desses capítulos é de autoria de um dos mais profundos conhecedores do problema, o advogado e professor de Direito Masato Ninomiya, que preside o Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), instituição criada para dar assistência aos dekasseguis.

O segundo, de autoria do psiquiatra Décio Issamu Nakagawa e da psicóloga Kyoko Yanagida Nakagawa, contém pelo menos uma constatação instigante: a exclusão social entre os nikkeis. A impressão dominante, diz Décio Nakagawa, era a de que a coletividade nipo-brasileira se constituía de universitários, comerciantes, industriais ou agricultores bem-sucedidos. Tendo estudado a situação dos dekasseguis, o psiquiatra concluiu o seguinte: ''''O movimento dos trabalhadores brasileiros no Japão revelou uma faceta invisível ou escondida. Cidadãos brasileiros, que poderiam ter passado toda sua existência sem a consciência de sua exclusão social, com o movimento migratório, tomaram conhecimento dessa dura realidade até então mascarada.''''

Eis aí um tema que mereceria um exame mais profundo dos especialistas. Há outros que também foram tratados de passagem no livro, alguns em notas de rodapé, e que igualmente estão a requerer uma reflexão mais intensa. A extrema necessidade de aceitação pela sociedade local, por exemplo, forçou os japoneses e seus descendentes a conviver com freqüentes manifestações de insatisfação com relação a sua presença no Brasil, como as relatadas por Harada em nota no pé da página 42. Outra nota de rodapé do mesmo autor (pág. 44) fala do envolvimento de nikkeis na resistência ao regime militar, tema que os descendentes de japoneses costumam evitar.

DEFINIÇÃO

Mas o livro contém também uma definição preciosa do nikkei: ''''Mais do que um ser dual, com alma japonesa se comportando como um brasileiro, o nikkei, hoje, não pode ser considerado japonês. Ele é nikkei, um japonês ou descendente que tem o Brasil como sua pátria materna, que carrega traços indissolúveis da cultura japonesa, muitas vezes não mais encontrados no país de origem.'''' (página 47).

Na parte final, o livro traz entrevistas com algumas das personalidades nikkeis mais conhecidas ou atuantes na sociedade brasileira, entre elas o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Juniti Saito; o ex-ministro Shigeaki Ueki; o sociólogo, ex-diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e atual pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da USP, Sedi Hirano; empresários como Chieko Aoki e Renato Nakaya; o desembargador aposentado Kazuo Watanabe; e jornalistas como Celso Kinjô, ex-editor chefe do Jornal da Tarde, e os que se dedicam a publicações e programas voltados para os nikkeis, como Helena Mizumoto, Raul Takaki e Paulo Nobuo Miyagui.

Serviço
O Nikkei no Brasil. Organização Kiyoshi Harada. Editora Atlas. 630 págs. R$ 80. Hall do Palácio Nove de Julho (Assembléia Legislativa). Avenida Pedro Álvares Cabral, 201, Ibirapuera. Amanhã, 19 h


Fonte: Estadão Segunda-Feira, 14 de Janeiro de 2008 
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